Presidente da diretoria reflete sobre encontro com o papa

Março 18, 2020

“Sejam maternais, sejam dóceis, é disso que o mundo precisa.”

Foram estas as palavras proferidas pelo Papa Francisco à Diretoria e Equipe do MCGC durante nossa reunião no dia 27 de fevereiro de 2020. A audiência privada foi um encontro íntimo de aproximadamente 10 pessoas, incluindo o Cardeal Tagle, que serve no Conselho Consultivo Episcopal do MCGC e tem sido um campeão do MCGC desde o lançamento durante a visita do Papa Francisco às Filipinas em janeiro de 2015.

O que era para ter sido um breve encontro de 15 minutos tornou-se uma conversa de uma hora sobre o estado do mundo, a história do nascimento da encíclica Laudato Si’, e a própria jornada pessoal de eco-conversão do Papa Francisco.

Como presidente da Diretoria, foi uma grande honra dar início à nossa conversa com o Papa Francisco, um encontro que foi marcado por ocasião do quinto aniversário da criação do MCGC e quinto aniversário do lançamento da Laudato Si’. Eu comecei me apresentando como columbana e mãe, ressaltando como estes são os pontos de referência da minha vida (abaixo está minha fala na íntegra).

Em seguida, eu compartilhei a mensagem que recebi naquela manhã de um columbano na Austrália, que escreveu, “A quaresma começou e podemos ver pequenos botões surgindo nas árvores e cinzas dos incêndios trágicos. São sinais de nova vida.” Fiz a observação de como esta mensagem era propícia por estarmos em audiência com o Papa Francisco no segundo dia da quaresma e por ser uma boa metáfora do nascimento do MCGC cinco anos atrás.

Logo, o Papa Francisco convidou a cada pessoa presente para compartilhar sobre si, e ofereceu suas próprias reflexões que me pareceram extremamente humildes e encorajadoras. Primeiro ele comentou sobre o trabalho maternal e dócil do MCGC, de todas as organizações membros, e da Igreja trazendo a Laudato Si’ à vida.

Ele afirmou que este trabalho de criar, cultivar, conectar e escutar é o trabalho que todos partilhamos no cuidado pela nossa casa comum. E neste cuidado maternal há uma ternura e compaixão que combate a violência, cinzas do nosso tempo.

O Santo Padre ainda compartilhou de maneira belamente costurada o nascimento da Laudato Si’ e sua própria conversão pessoal à eco-espiritualidade. Ele nos remeteu de volta a Aparecida em 2007 e o rascunho do documento final. Quando revisava a encíclica, ele reconheceu suas próprias dúvidas sobre incluir a linguagem que era proposta pelos bispos brasileiros sobre escutar o grito da Amazônia. Mas no final ele concordou com a inclusão da expressão.

Ele observou que não foi até “chegar em Roma” que a urgência se tornou clara para ele, ouvindo a seus conselheiros, cientistas e teólogos. Ele comentou humildemente que o desenvolvimento da Laudato Si’ foi realmente um trabalho colaborativo de várias pessoas e resultado de ouvir o grito das pessoas e da terra.

Fiquei profundamente tocada e encorajada pela maneira como ele se permitiu ser vulnerável conosco. Ficou claro que, quando ele nos chama na Laudato Si’ para uma conversão ecológica constante, ele se inclui nessa jornada.

Num momento de brincadeira, dos quais houve vários, ele disse que “Em nossa próxima reunião, os cardeais estarão de verde cardeal ao invés de vermelho cardeal.” Apesar do tom humorístico, realmente acredito que é um vislumbre de sua esperança de que a Igreja encontre maneiras de simbolizar e substanciar uma integralidade mais profunda na teologia, espiritualidade, liturgia, práticas e cuidado pastoral que sejam enraizados no bem comum para toda a criação.

Após todos terem a oportunidade de falar com transparência, concluímos o momento em círculo e rezando o Pai Nosso – a oração mais unificadora e primordial de nossa fé. Naquele círculo, eu levava comigo a minha família, meus amigos, e toda a família MCGC.

Finalmente, após a troca de presentes, o Papa Francisco nos convidou para um corredor por onde ele passa para o hall de recepção. Ali, ele nos mostrou uma tapeçaria belíssima de Deus dando à luz a humanidade e todo o universo.

Ele compartilhou que toda vez que ele passa pela tapeçaria em seu caminho para o hall, ele proclama em seu coração, “Laudato Si’!” Com esse comentário, dissemos adeus e oferecemos nossas orações finais em gratidão.

A tapeçaria que recorda o Papa Francisco da Laudato Si’.

Nos dias desde nosso encontro, eu continuo refletindo sobre a mensagem do Papa Francisco para sermos maternais e dóceis, especialmente no contexto de nossa história do MCGC. Me parece que suas palavras são um bom lembrete do poder da ternura, especialmente em meio às cinzas de nossas vidas e do mundo.

Eu rezo para que ao longo deste quinto ano de aniversário e em diante, possamos continuar a viver o convite de sermos maternais e dóceis, que é outra forma de expressar o chamado para um amor profundo e transformador por toda a criação.

Minha fala na íntegra:

Muito obrigada por nos receber. Nós representamos o Movimento Católico Global pelo Clima, uma rede de mais de 900 organizações membros ao redor do mundo. É um dom poder expressar a você a nossa gratidão e nos colocamos à seu serviço pela missão de Deus. Eu sou uma missionária columbana e mãe de um filho e uma filha. Estes são os pontos de referência da minha vida.

Cedo hoje de manhã eu recebi uma mensagem dos nossos missionários na Austrália. Eles compartilharam, “A quaresma começou e podemos ver pequenos botões surgindo nas árvores e cinzas dos incêndios trágicos. São sinais de nova vida.”

O MCGC também nasceu das cinzas e do sofrimento do mundo há cinco anos e foi nutrido desde então pela Laudato Si’. Inspirados na Laudato Si’, temos três dimensões da nossa missão:

  • Acompanhar os corações em sua jornada de conversão ecológica
  • Transformar vidas em direção à relação justa com toda a criação
  • Levantar as vozes, o grito do povo e o grito da terra – criar um espaço público para que possam ser ouvidos para uma mudança estrutural

Vimos o mundo se despertar com a mensagem da Laudato Si’ e a alegria do evangelho. O número 240 da Laudato Si’ nos inspira à missão essencial que recebemos:

Na verdade, a pessoa humana cresce, amadurece e santifica-se tanto mais, quanto mais se relaciona, sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim assume na própria existência aquele dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a sua criação. Tudo está interligado, e isto convida-nos a maturar uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade.

Meus companheiros aqui podem falar mais sobre os detalhes de nosso trabalho.

Mais que qualquer outra coisa, oferecemos em nome de toda a família MCGC mundial a nossa gratidão e nossas orações por você todos os dias. Que Deus te acompanhe assim como nós também te acompanhamos. Obrigada.

Pela Presidente da Diretoria MCGC Amy Woolam Echeverria